Na Amazônia, uma
explosão de cores e ritmos
Em sua 37ª edição, os três
dias e as três noites da famosa festa amazonense
movimentam - de 28 a 30 deste mês - a pacata
ilha de Parintins de aproxi madamente 90 mil habitantes,
situada a 420 km da capital Manaus. Considerada a
maior manifestação popular do Norte
brasileiro, a festa tem ares de uma fantástica
ópera, onde duas “galeras” (torcidas)
de dois grupos rivais, o Caprichoso e o Garantido,
encenam lendas e rituais amzônicos e disputam,
ano a ano, o título do Festival. O que se vê
é um certo sincretismo de todas as manifestações
tipicamente brasileiras: carnaval, São João,
futebol , missa e lendas folclóricas.
O grande “barato” do espetáculo
é que a cidade fica dividida entre duas cores:
só existe o azul, do Boi Caprichoso, campeão
14 vezes, e o vermelho do Garantido, com 20 títulos.
A rivalidade entre as duas torcidas é tal,
que quem escolhe um dos bois deve assumir um sério
compromisso com a cor: não é permitido
usar nenhuma peça de roupa da cor da outra
torcida, nem pronunciar o nome do concorrente, que
é sempre referido como “o contrário”.
A questão do amor à cor é tão
séria que até a poderosa Coca-Cola,
patrocinadora do evento desde 1995, teve de mudar
para azul a sua famosa logomarca no lado “caprichoso”
da arquibancada. A questão da cor chegou inclusive
a vetar a presença de jurados gaúchos
na comissão julgadora. Motivo: os representantes
do Rio Grande do Sul poderiam ser influenciados pelas
cores dos times rivais Internacional (vermelho) e
Grêmio (azul), na hora de avaliar as performances
dos bumbás.
Apesar de tanta rivalidade, o respeito
para com os adversários é sagrado. Enquanto
o Garantido se apresenta, ninguém da galera
do Caprichoso se manifesta sob pena de perder pontos.
O contrário também acontece: os milhares
de garantidos ficam totalmente mudos quando o rival
entra no bumbódromo, arena construída
em 1988 especialmente para o Festival. O Centro de
Convenções Amazonino Mendes, vulgo Bumbódromo,
tem formato de uma cabeça de boi estilizada
e pode receber até 40 mil pessoas. Existem
camarotes e cadeiras numeradas, mas a grande maioria
dos ingressos é de graça, o que faz
com que já de manhã uma fila enorme
se aglomere do lado de fora. O show começa
apenas às 20h.
A lenda do Boi-bumbá
O ponto alto da Festa do Boi é a encenação
da lenda do Boi-bumbá. A história é
simples: grávida, Mãe Catirina deseja
comer a língua do boi mais bonito da fazenda
onde vive, o que leva seu marido, o peão Pai
Francisco, a matar o animal de estimação
de seu patrão. O homem é descoberto
e preso. Para salvar o boi, o amo manda chamar um
médico e um padre, que acabam conseguindo ressuscitar
o animal. Pai Francisco é perdoado e todos
iniciam uma grande festa. Trazido do Nordeste, o espetáculo
de Parintins ganhou algumas adaptações:
o médico virou um pajé, a presença
do negro foi substituída pela do índio
e a prisão do matador só é conseguida
com a ajuda de uma tribo indígena.
Ao som da Marujada (bateria do Caprichoso)
ou da Batucada (a do Garantido), os 4 mil brincantes,
como são chamados os integrantes de cada torcida,
encarnam os personagens da lenda: além do amo
do boi, do levantador de toadas (cantor), da sinhazinha
da fazenda, da rainha do folclore, dos vaqueiros,
do pajé, e é claro, de Pai Francisco
e Mãe Catirina, cada “boi” ainda
é composto pelo narrador, que conta a lenda
e fala sobre os personagens e pelo apresentador, responsável
por animar a torcida e narrar a matança do
boi. Entretanto, a figura central da encenação
fica escondida debaixo da fantasia do boi. É
o Tripa, que carregando uma pesada armação,
pula e dança sem parar e chega a perder um
quilo e meio por noite.
Cerca de 100 mil pessoas
chegam à Parintins em junho, entre elas
artistas, personalidades, políticos e empresários
interessados em se esbaltar na festa de cores,
ritmos, música e muita emoção.
Garantido e Caprichoso
GARANTIDO
- Simbolizado pelo coração vermelho,
o boi foi fundado em 1913 por Lindolfo Monteverde,
famoso cantor de versos do local. Durante o serviço
militar Monteverde adoeceu, e fez promessa para
São João de que, caso recobrasse
a saúde, criaria um Boi que sairia todos
os anos à rua enquanto ele vivesse. E assim
continua até hoje. Quanto ao nome Garantido,
as versões são muitas. Uma delas
é de que teria surgido durante uma briga
com o Boi contrário (em Parintins a torcida
de um Boi chama o rival de contrário).
Segundo Lindolfo, o seu Boi saia inteiro, enquanto
o contrário sempre tinha o chifre quebrado.
"Isso é garantido" dizia ele.
Outra hipótese envolve o repentista
Emídio Vieira, que fez um desafio a Lindolfo:
"... vou caprichar no meu Boi".E a resposta
veio em seguida: "Pois capriche no seu que eu
garanto o meu".
Inevitavelmente o Festival de Parintins
é comparado ao Carnaval carioca. Afinal de
contas, ambos envolvem carros alegóricos e
fantasias. No entanto, as comparações
param por aí.
Em 1º lugar, durante o Carnaval,
as escolas de samba (14 no grupo Especial, mais 12
no grupo de acesso), compostas por diversas alas,
desfilam ao som do samba cantado por seu puxador.
Além disso, o desfile ocorre conforme uma parada:
tem início na concentração, atravessa
uma passarela, e termina na dispersão.
Já Parintins tem a dinâmica
de uma Ópera: o espetáculo acontece
dentro de uma arena circular, onde cada um dos bois
realiza seu desfile com carros alegóricos que
se mexem, e produzem vários efeitos especiais.
Além disso, cada boi tem sua "galera",
a qual ensaia uma coreografia para o desfile.
Finalmente um fato que merece destaque,
é que enquanto um Boi desfila e sua galera
faz coreografias, a galera do contrário deve
permanecer em silêncio, para não ofuscar
o espetáculo. Uma verdadeira lição
de cavalheirismo.

CAPRICHOSO - Simbolizado pela estrela
azul, pela versão oficial o boi começou
em 1925 após a saída de um de seus componentes,
que foi substituído por dois irmãos
cearenses, os quais criaram o boi para pagar uma promessa,
mas existem outras interpretações da
história:
Uma é de que teria surgido em
meados da década de vinte, através de
moradores de Parintins que se reuniram para fundar
um Boi-bumbá, e homenagear o Boi Caprichoso,
que já existia na cidade de Manaus. A idéia
tanto deu certo, que o dono do Boi Galante de Parintins
(existente desde 1922) aceitou a idéia.
Finalmente dizem que dois cearenses
que ali chegaram, criaram o Boi para pagar promessa.
Segundo eles, um Boi seria colocado para dançar
nas festas de São João caso os dois
tivessem sucesso na nova terra.