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Passei, no princípio da semana, dois dias em São
Paulo. Com duas horas, e não
mais, percebi que há, realmente,
um fatal abismo entre o carioca e o
paulista. Foi no almoço que percebi
toda a verdade. Imaginem que entrei
no, talvez, melhor restaurante da cidade.
Todas as mesas ocupadas, gente até
no lustre. Comi o meu bom filé.
Depois, escolhi a sobremesa: —
melão. Enquanto o garçom
ia e vinha, levantei-me e fui lá
dentro. Quando volto, olho e não
vejo ninguém, a não ser
os garçons e as moscas vadias.
Imaginei-me vítima de uma alucinação.
Quando o garçom chegou com o
melão, perguntei-lhe, irritado:
— Cadê o pessoal que estava
aqui? Isso não estava cheio?”
O garçom pôs o prato na
mesa: — Perfeitamente.”
E eu: “Não tem mais ninguém,
por quê?” Antes de responder,
indagou: — “O senhor é
do Rio?” Era do Rio. Deu a explicação
sucinta e lapidar: — Aqui, trabalha-se.”
O que, evidentemente, não se
dá no Rio. No Rio, três
amigos que se juntam num restaurante
só saem quatro horas depois.
No mínimo, no mínimo.
Ah, os nossos papos não acabam
nunca. Mentimos muito, porque não
há longa conversa sem um belo
repertório de mentiras. E porque
trabalha, o paulista é triste,
sim, é taciturno. |