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Nelson Rodrigues
nasceu da cidade do Recife - PE, em
23 de agosto de 1912, quinto filho dos
catorze que o casal Maria Esther Falcão
e o jornalista Mário Rodrigues
puseram no mundo. Os nascidos no Recife,
além do biografado, foram Milton,
Roberto, Mário Filho, Stella
e Joffre. No Rio de Janeiro nasceram
os outros oito: Maria Clara, Augustinho,
Irene, Paulo, Helena, Dorinha, Elsinha
e Dulcinha.
Seu pai, deputado e jornalista do Jornal
do Recife, por problemas políticos
resolve se mudar para o Rio de Janeiro,
onde vem trabalhar como redator parlamentar
do jornal Correio da Manhã. Em
julho de 1916, d. Maria Esther e filhos
chegam ao Rio de Janeiro num vapor do
Lloyd.
Haviam vendido tudo no Recife para
cobrir as despesas de viagem, e tiveram
que ficar hospedados na casa de Olegário
Mariano por algum tempo. Em agosto
de 1916 alugaram uma casa na Aldeia
Campista, bairro da Zona Norte da
cidade, na rua Alegre, 135, onde a
família Rodrigues teve seu
primeiro teto na cidade.
Nelson ia sendo criado dentro do clima
da época: as vizinhas gordas
na janela, fiscalizando os outros
moradores, solteironas ressentidas,
viúvas tristes, com as pernas
amarradas com gazes por causa das
varizes.
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Naquela época
os nascimentos eram assistidos por parteiras
de confiança e eram feitos em casa.
Os velórios também eram feitos
em casa, usava-se escarradeira e o banho era
de bacia. Nelson registrava em sua memória
esse cenário. Daí sairiam os
personagens de sua obra literária.
Com o autor vivendo seu quarto
ano de vida, um fato pitoresco: uma vizinha,
da. Caridade, invade a sua casa e diz para
sua mãe: "Todos os seus filhos
podem freqüentar a minha casa, dona Esther.
Menos o Nelson." Como ninguém
entendesse a razão de tal proibição,
ela afirmou: vira Nelson aos beijos com sua
filha Odélia, de três anos, com
ele sobre ela, numa atitude assim, assim.
Tarado!
Aos sete anos, em 1919, pediu
a sua mãe para ir à escola.
Foi matriculado na escola pública Prudente
de Morais, a dois quarteirões de sua
casa. Aprendeu a ler rapidamente e era por
isso elogiado por sua professora, d. Amália
Cristófaro. Infelizmente não
era muito asseado e vivia sendo repreendido
por ela. O que, no entanto, causava espécie,
era sua cabeça — desproporcional
em relação ao tronco —
e suas pernas cabeludas.
Em 1920 ocorreu um fato que,
depois, se transformou num dos favoritos do
escritor: o do concurso de redação
na classe. D. Amália passou a lição:
cada aluno deveria escrever sobre um tema
livre. A melhor redação seria
lida em voz alta na classe. Finda a aula,
as composições foram entregues.
A professora quase foi ao chão com
o trabalho de Nelson: era uma história
de adultério. O marido chega em casa,
entra no quarto, vê a mulher nua na
cama e o vulto de um homem pulando pela janela
e sumindo na madrugada. O marido pega uma
faca e liquida a mulher. Depois ajoelha-se
e pede perdão. A redação,
apesar do espanto que causou em todo o corpo
docente, não tinha como não
ser premiada, muito embora não pudesse
ser lida na classe. A professora inventou
um empate e leu a outra composição.
Nesse período, Nelson
presenciou grandes discussões entre
seus pais, causadas por ciúmes que
seu genitor tinha de sua mãe. Influenciado
por seus irmão mais velhos, passou
a ter a leitura como passatempo, saindo rapidamente
do Tico Tico para romances mais "pesados"
como Rocambole, de Ponson du Terrail, Epopéia
do Amor, Os Amantes de Veneza e Os Amores
de Nanico, de Michel Zevaco, O Conde de Monte
Cristo e as Memórias de um Médico,
de Alexandre Dumas, os fascículos de
Elzira, a Morta-Virgem, de Hugo de América,
e outros mais. Mudavam os autores, mas no
fundo era uma coisa só: a morte punindo
o sexo ou o sexo punindo a morte.
Foi em 1919 que o autor descobriu
o Fluminense. Foi o primeiro ano do tricampeonato
do tricolor, muito embora nem ele nem seu
irmão Mário Filho, posteriormente
famoso como jornalista esportivo e que teve
seu nome escolhido para ser o nome oficial
do estádio do Maracanã, tivessem
dinheiro para sair da rua Alegria e se deslocarem
até Laranjeiras para ver o seu time
jogar.
Consolidado seu prestígio
junto a Edmundo Bittencourt, do Correio da
Manhã, Mário Rodrigues junta
sua família e muda-se para a Tijuca,
fato que, na época, era mostra de nítida
melhora de padrão de vida. Estávamos
em 1922.
O autor seguia sua vida, sentindo
a ausência do pai, sempre envolvido
com a política e o jornalismo. No ano
de 1926 foi expulso do Colégio Batista,
na Tijuca, na segunda série do ginásio,
por rebeldia. Nelson vivia contestando seus
professores, em especial dos de Português
e História. Foi, então, matriculado
no Curso Normal de Preparatórios, na
rua do Ouvidor, pois seu pai esperava que
ele futuramente prestasse exames no famoso
Colégio Pedro II.
Para compensar a falta de contato
com os filhos, Mário Rodrigues permitia
sua ida ao Correio da Manhã para visitá-lo.
Dizem que jamais sonhou em ter seus filhos
jornalistas: as meninas seriam médicas,
os meninos advogados. Afinal, a vida que levava
não era nada fácil: nomeado
diretor do jornal, meteu-se numa batalha entre
Epitácio Pessoa e Artur Bernardes,
o que lhe custou um ano de cadeia, em 1924.
O motivo: denunciou que usineiros pernambucanos
(eles já existiam!) haviam dado um
colar no valor de 120 contos de réis
à esposa do então presidente
Epitácio Pessoa, d. Mary. Negando-se
a fugir do país, ficou preso no Quartel
dos Barbonos, na rua Evaristo da Veiga, no
Rio de Janeiro. A partir da data de sua prisão
o jornal que dirigia — Correio da Manhã
— foi silenciado pelo governo por oito
meses.
Antes de seu pai ser preso,
Nelson e família haviam mudado para
uma casa na rua Inhangá e eram vizinhos
do hotel Copacabana Palace. Ali, aos doze
anos, o autor aprendeu a nadar. Mas, aos poucos,
à medida em que entrava na adolescência,
foi sendo possuído por uma indolência
melancólica, ficando depressivo, suspirando
pelos cantos e dizendo: "Eu sou um triste!".
Durante o tempo em que esteve
preso, Edmundo Bittencourt cortou o salário
de Mário Rodrigues, dando à
mãe de Nelson apenas o suficiente para
pagar o aluguel da casa. Mário foi
ajudado financeiramente, nessa época,
por Geraldo Rocha (proprietário do
jornal A Noite, concorrente do Correio da
Manhã), sem o que sua esposa e a penca
de filhos por certo teriam passado fome. Ao
ser libertado, volta ao jornal e é
surpreendido com a notícia de que não
haveria mais um diretor permanente, cargo
esse que detinha. Seria feito um rodízio
de diretores. Mas pior do que isso foi o fato
de tomar conhecimento de que Edmundo estava
tentando se aproximar de seu desafeto Epitácio
Pessoa. Mário, em carta desaforada,
pediu demissão a Edmundo, dizendo que
em breve voltaria para esmagá-lo. Daí
surgiu seu próprio jornal, A Manhã.
Nelson inicia sua carreira
jornalística em 29 de dezembro de 1925,
como repórter de polícia, ganhando
trinta mil réis por mês. Tinha
treze anos e meio, era alto, magro e seus
cabelos eram indomáveis. Embora fosse
filho do patrão, teve que comprar calças
compridas para impor respeito aos colegas
de redação.
Ali reuniam-se colaboradores
ilustres: Antônio Torres, Monteiro Lobato,
Medeiros e Albuquerque, Agripino Grieco, Ronald
de Carvalho, Maurício de Lacerda e
José do Patrocínio. Além
desses, havia a turma da casa: Danton Jobim,
Orestes Barbosa, Renato Viana, Joracy Camargo,
Odilon Azevedo e Henrique Pongetti. Outra
figura de A Manhã era Apparício
Torelly — Apporely — que mais
tarde se autodenominaria "Barão
de Itararé" e fundaria seu próprio
jornal, A Manha.
O autor impressiona os colegas
com sua capacidade de dramatizar pequenos
acontecimentos. Especializou-se em descrever
pactos de morte entre jovens namorados, tão
constantes naquela época.
Na zona preta do Mangue, na
rua Pinto de Azevedo, estavam concentradas
as prostitutas mais pobre e esculhambadas,
negras na maioria, a dois mil réis
por alguns minutos. Mas o autor preferiu as
da rua Benedito Hipólito, mais asseadas
e que ficavam em ambientes melhores, embora
o preço subisse para cinco mil réis.
Ali, aos catorze anos, Nelson foi pela primeira
vez com uma mulher para dentro de um quarto.
Ficou freguês.
O indomável escritor
cria um tablóide de quatro páginas
intitulado Alma Infantil,nascido da troca
de cartas com seu primo Augusto Rodrigues
Filho, que não conhecia pessoalmente
e que morava no Recife. Ele queria ser como
seu pai, um espadachim verbal. Depois de cinco
números e muitos ataques a políticos
pernambucanos e a cariocas, Nelson desiste
do tablóide.
A irmã Dorinha morre
em setembro de 1927, aos nove meses, de gastrenterite.
Em 1928 a família se transfere para
uma nova e luxuosa casa na rua Joaquim Nabuco,
62, em Copacabana. Viviam um momento de muito
dinheiro e muita fartura.
Nessa época, o autor
e seus irmãos mais velhos trabalhavam
no jornal A Manhã: Milton era o secretário,
Roberto ilustrava algumas reportagens, Mário
Filho começou como gerente, indo depois
para a página literária e depois
a de esportes. Nelson havia abandonado desde
1927 a terceira série do ginásio
no Curso Normal de Preparatórios. Nunca
mais voltou à escola, apesar do esforço
desenvolvido por seu pai.
Tendo garantido uma coluna
assinada na página três do jornal
— a página principal —
o escritor publica seu primeiro artigo, em
07 de fevereiro de 1928. Tinha o título
de "A tragédia de pedra...",
com as solenes reticências. Depois vieram
"Gritos Bárbaros", "O
elogio do silêncio", "A felicidade",
e "Palavras ao mar", todos de grande
sensibilidade poética. Seu lado monstro
só apareceu na crônica de 16
de março, "O rato..." (com
as famosas reticências), em que ele
conta como viu um rato morto, achatado por
um carro, defronte à Biblioteca Nacional.
Para desespero de seu pai, começa a
"bater" em Ruy Barbosa. No segundo
artigo em que esculhambava o "Águia
de Haia", antevendo o que aconteceria,
Nelson achou que se safaria de seu pai se
saísse bem cedo de casa, antes que
o "velho" lesse o jornal. Enganou-se.
O castigo foi mais duro do que ele imaginava:
foi rebaixado, saindo da página três
e retornando à seção
de polícia, onde trabalhou nos cinco
meses seguintes.
Mal teve tempo de voltar à
terceira página e o pior acontece.
O jornal, mal administrado, está cheio
de dívidas. O sócio de seu pai,
Antônio Faustino Porto, que há
tempos vinha arcando com os pagamentos urgentes,
torna-se sócio majoritário e
oferece o emprego de diretor a Mário.
Este aceita, mas fica só um dia. A
intervenção do novo dono em
seus artigos faz com que ele e a família
deixem o jornal.
Amigo de Melo Viana, vice-presidente
da República, no dia em completava
43 anos, 21 de novembro de 1928, e apenas
49 dias depois de perder A Manhã, Mário
Rodrigues lançou seu novo jornal de
grande sucesso: Crítica, que chegou
a ter uma circulação de 130.000
exemplares.
O tenente-coronel Carlos Reis
manda a polícia prender todos os Rodrigues
que encontrasse, sob a alegação
de que um deles era o mandante do assassinato
do argentino Carlos Pinto, repórter
de A Democracia. Foram, pai e irmãos,
todos presos. Nelson escapou por não
se encontrar no Rio, em viagem para o Recife,
única forma encontrada pela família
para tentar livrá-lo da depressão
em que se encontrava. Cheio de paixões,
ora por Lilia, ora por Carolina e ora por
Marisa Torá, estrela da companhia teatral
de Alda Garrido.
Ao lado dos primos Augusto
e Netinha (com quem mantinha há algum
tempo namoro epistolar), conheceu Recife e
Olinda, a praia da Boa Viagem e, com Augusto,
a zona de mulheres do Cais do Porto, considerada
a maior da América do Sul. Sua prima,
não se sabe como, tirou-o da depressão,
fazendo-o voltar a todo vapor para a redação
da Crítica.
Em 26 de dezembro de 1929 o
jornal estampa matéria, na primeira
página, sobre o desquite de Sylvia
e José Thibau Jr. Foi a fórmula
encontrada para o diário não
sair sem assunto, já que era o primeiro
dia após o natal. No dia 27, pela manhã,
Sylvia entra na redação da Crítica
procurando por Mário Rodrigues. Não
o encontrando, pede para falar com seu filho
Roberto e dá-lhe um tiro no estômago.
Nelson viu e ouviu aquilo tudo. Com dezessete
anos e quatro meses, era a primeira cena de
violência brutal que presenciava. Seu
irmão faleceu no dia 29.
Ninguém conseguirá
penetrar no teatro de Nelson Rodrigues sem
entender a tragédia provocada pela
morte de Roberto. No mesmo dia do enterro,
toda a família pôs luto. Os homens
ainda podiam sair à rua de terno escuro
ou com o fumo na lapela, mas suas irmãs
se cobriram de preto da cabeça aos
pés. Milton, o irmão mais velho,
ia para o porão do palacete, antigo
território de Roberto, apagava as luzes
e ficava horas no escuro — à
espera de um milagre que o fizesse vê-lo
e ouvi-lo. Nelson apenas chorava. Joffre,
de catorze anos, ganhou um revólver
de Mário Rodrigues e passou a andar
armado pela cidade à noite. Sabia que
Sylvia tivera sua prisão relaxada.
Se a encontrasse, a mataria.
Apenas 67 dias após
a morte do filho, Mário Rodrigues sofre,
aos 44 anos, uma trombose cerebral. Faleceu
dias depois de encefalite aguda e hemorragia.
Diante de tão sentidas perdas a família
não encontra mais condições
de morar na mesma casa. Mudam-se para outra
casa na rua Sousa Lima, também em Copacabana.
Um bafo de sorte surge: Júlio Prestes,
que fora elogiado e defendido pela Crítica,
vence Getúlio Vargas nas eleições
para a presidência da República.
Mas o que eles queriam era destruir quem matara
Roberto e, por conseqüência, Mário.
Sylvia foi absolvida por 5 a 2. O julgamento
foi encerrado no dia 23 de agosto, exatamente
quando Nelson completava 18 anos.
Estoura a revolução,
em 3 de outubro, no Rio Grande do Sul, Minas
e quase todo o Nordeste. Crítica, num
erro de avaliação, continua
a atacar os rebeldes. Em 24 de outubro Washington
Luís é deposto e a turba saiu
cedo para acertar as contas com os jornais
do velho regime. As redações
e oficinas de diversos jornais são
invadidas e empasteladas. Dentre elas, a do
jornal dos Rodrigues. De todos eles só
um não voltaria a circular: Crítica.
Isso sem contar que Milton e Mário
Filho foram novamente presos, porém
logo libertados.
Os irmãos começam
a procurar emprego, coisa que para eles não
estava nada fácil. Foram meses batendo
em portas fechadas. Começaram a vender
tudo o que tinham para poder sobreviver e,
devido ao aluguel sempre atrasado, eram obrigados
a mudar de casa a cada três meses. Até
que um dia uma porta se abriu para Mário
Filho e os outros irmãos penetraram
por ela.
Irineu Marinho havia fundado
o jornal O Globo em 1925, mas, apenas 21 dias
após o jornal circular pela primeira
vez, morreu de enfarte. Roberto Marinho, filho
de Irineu, era o sucessor natural mas achou-se
muito inexperiente para comandar um jornal.
Chamou um velho companheiro de seu pai, Euricles
de Matos, para tocar o negócio. Mas,
em maio de 1931 Euricles também faleceu
e Roberto Marinho convida Mário Filho
para assumir a página de esportes de
O Globo. Mário aceitou, desde que pudesse
levar seus irmãos Nelson e Joffre.
Roberto Marinho deu seu "de acordo"
com a condição de só
pagar o ordenado a Mário Filho.
Nelson trabalhou alguns meses
no jornal O Tempo. Joffre foi para A Nota,
onde já trabalhava o outro irmão,
Milton. O escritor era chamado de "filósofo"
pelos colegas de O Globo, tinha um aspecto
desleixado, um só terno e não
vestia meias por não tê-las.
Com a ajuda de Mário Martins e o beneplácito
de Roberto Marinho, Mário Filho lança
seu jornal, Mundo Esportivo, justo no fim
do campeonato de futebol. Sem ter assunto,
inventaram algo que seria uma mina de dinheiro
anos depois: o concurso das escolas de samba.
Em 1932 o autor teve sua carteira
assinada em O Globo, um ano após começar
a trabalhar naquele diário, com um
ordenado de quinhentos mil réis por
mês. Entregava todo o dinheiro para
sua mãe e recebia uns trocados de volta
para comprar seus cigarros (média de
quatro carteiras por dia). Em compensação,
economizava pois voltava de carona com o "Dr.
Roberto" para casa. Para arranjar mais
algum dinheiro, trabalhou como redator da
firma Ponce & Irmão, distribuidora
no Rio dos filmes da RKO Radio Pictures. Criava
textos para os anúncios dos filmes
nos jornais.
Nesse meio tempo, tinha suas
paixões: por Loreto Carbonell, argentina
de olhos azuis, bailarina do Municipal; por
Eros Volúsia, filha da poetisa Gilka
Machado, também bailarina, linda e
jovem morena. Dividia com seu irmão
Joffre a paixão por ela. Depois vieram
Clélia, uma estudante de Copacabana
e Alice, professora de Ipanema.
A tosse seca e uma febre baixa,
porém persistente, ao por do sol, foram
os avisos dados a Nelson, além de sua
magreza. Sua irmã Stella, já
médica, arranjou uma consulta. O médico
pediu que ele dissesse "33" e verificou
sintomas de tuberculose pulmonar, o grande
fantasma do ano de 1934. Por falta de um diagnóstico
precoce, o autor já havia, com apenas
21 anos, arrancado todos os dentes e posto
dentadura, numa tentativa de debelar a febre
que insistia em não ir embora.
Vai, então, para Campos
do Jordão - SP, local recomendado para
tratamento, sozinho, sem saber se voltaria.
Foi a primeira de uma série de seis
internações. Roberto Marinho,
sabendo das dificuldades da família,
continuou pagando seu ordenado normalmente.
Nelson passou 14 meses no Sanatórinho,
de abril de 1934 a junho de 1935. Durante
esse período só os irmãos
Milton e Augustinho foram visitá-lo
uma única vez. Compensava a ausência
de parentes e amigos com cartas, muitas delas
para Alice, a professorinha.
Contam que, em 1935, um doente
propôs encenarem um teatrinho. O biografado
foi encarregado de escrever a comédia,
um "sketch" cômico sobre eles
mesmos. Logo nas primeiras cenas a platéia
começou a gargalhar e, com isso, surgiram
os ataques de tosse que quase fizeram vítimas.
Foi a primeira experiência "dramática"
de Nelson.
O autor pede ao secretário
do jornal O Globo que o transfira da página
de esportes para a de cultura. Queria escrever
sobre ópera. Com a ajuda de Roberto
Marinho consegue a transferência e começa
arrasando a "Esmeralda", ópera
brasileira do compositor Carlos de Mesquita.
Foi sua única incursão nessa
área.
Em abril de 1936, a terrível
doença atacou seu irmão Joffre,
com 21 anos, que foi levado para o Sanatório
em Correias - RJ. Nelson ficou a seu lado
durante sete meses. No dia 16 de dezembro
de 1936 Joffre faleceu.
Em 1937 a redação
do jornal só tinha homens. Após
muita conversa Roberto Marinho concordou em
contratar Elza Bretanha, apadrinhada do diretor
administrativo, como secretária de
Henrique Tavares, gerente de O Globo Juvenil.
Voltando de sua segunda estada em Campos de
Jordão, Nelson foi informado da presença
de Elza, "dezenove anos, moradora do
Estácio e dura na queda." Ele,
então, sentenciou: "Está
no papo." Errou.
Nelson se aproxima de Elza,
expõe sua situação de
penúria de saúde e financeira,
e fala em casamento. Consultada sua família,
não encontrou objeção.
Afinal, já tinha 25 anos. A mãe
de Elza, d. Concetta, siciliana das boas,
quase teve um ataque, tendo a honra de ter
sido acompanhada nisso por Roberto Marinho.
Ele disse a Elza: "Está sabendo
que vai se casar com um rapaz muito inteligente
e de grande talento, mas pobre, absolutamente
preguiçoso e doente? Sua mãe
está coberta de razão!"
Mesmo assim marcaram para se casar no dia
do aniversário de Elza: 08 de maio
de 1939. Se fosse preciso, fugiriam. Porém,
em 13 de maio, mandou para a noiva um recado
que dizia: "Amor, estou com a alma cheia
de pressentimentos tristes". Era a tuberculose
que o atacava novamente.
Nos quatro meses em que ficou
internado, Nelson mostrou seu lado ciumento.
Vivia atormentado com isso e, na volta, acabou
desfazendo o noivado. Mas o coração
falou mais forte do que o infundado ciúme
e marcaram novamente o casamento, contrariando
a mãe da noiva e o patrão de
ambos.
No dia 29 de abril de 1940,
sem externar qualquer anormalidade, Elza saiu
para trabalhar, foi para a casa de uma amiga
onde trocou de roupa e casou-se no civil,
diante do juiz. Depois, foram comemorar tomando
uma média com torrada na leiteria "Palmira".
Voltaram para O Globo Juvenil e trabalharam
normalmente. Haviam acertado, por vontade
de ambos, que a noite de núpcias só
aconteceria após o casamento religioso.
Os irmãos de Elza ficaram
sabendo e falaram até em matá-lo.
Nelson, com a alma leve, alugou uma casinha
no Engenho Novo. Era sua volta ao subúrbio.
Compraram móveis de segunda mão
e Mário, o irmão, lhe deu de
presente a cama de casal e a penteadeira.
Finalmente d. Concetta dá o "de
acordo" e o casamento religioso se realiza,
em 17 de maio, após o autor, com quase
28 anos, ter sido batizado, fazer a primeira
comunhão e estudado o catecismo, como
manda a santa madre Igreja.
Após seis meses de casamento,
certa manhã Nelson acorda e comunica
a Elza que estava cego. Não enxergava
nada. Descobriu, indo ao médico, que
se tratava de uma seqüela da tuberculose.
Tomou muito antiinflamatório, melhorou,
mas 30 por cento de sua visão estava
perdida para sempre, nos dois olhos. Apesar
do estado de penúria em que se encontravam,
o focalizado pediu a Elza que deixasse o emprego
quando se casassem. Logo que pode comprou
um telefone e ligava para ela de hora em hora.
Saudades ou ciúme? Nelson procurava
uma saída para seu aperto financeiro.
Elza estava grávida e seu salário
estava estagnado nos 500 mil réis mensais.
Um dia, ao passar em frente ao Teatro Rival,
viu uma enorme fila que se formava para assistir
"A família Lerolero", de
R. Magalhães Júnior. Alguém
comentou: "Esta chanchada está
rendendo os tubos!" Uma luz se acendeu
na cabeça do autor: por que não
escrever teatro?
No meio do ano de 1941 escreveu
sua primeira peça, A mulher sem pecado.
Nessa época as peças ficavam,
no máximo, duas semanas em cartaz.
Nelson oferece sua peça para dois grandes
artistas de então: Dulcina e Jaime
Costa, mas eles a recusam. O autor, necessitando
de dinheiro, começou a se mexer: submeteu
a peça a Henrique Pongetti, Carlos
Drummond de Andrade e ao crítico Álvaro
Lins. Mas não conseguiu encená-la.
Nasce Joffre, seu primeiro
filho. O autor, por ordens médicas,
não podia ficar perto do filho. Descobre
que foi premiado com uma úlcera do
duodeno. O médico lhe prescreve regime
alimentar e manda que ele pare de tomar café
e de fumar, coisa que nunca fez. Depois de
muita luta, em 09 de dezembro de 1942, A mulher
sem pecado foi levada à cena pela "Comédia
Brasileira", com direção
de Rodolfo Mayer, no Teatro Carlos Gomes,
no Rio de Janeiro. Lá ficou por duas
semanas e não teve repercussão
nenhuma perante o público. Alguns críticos
e amigos elogiaram, e isso bastava ao autor.
Em janeiro de 1943 Nelson escreve
sua segunda peça teatral: Vestido de
Noiva. Elza, sua mulher, fez mais de vinte
cópias datilografadas para serem entregues
a jornalistas, críticos e amigos. O
primeiro a receber foi Manuel Bandeira. Ele
gostou. Como outros, escreveu sobre ela e
elogiou. Os jornais e suplementos falavam
sobre Vestido de Noiva mas o autor não
conseguia encená-la. Todos diziam que
era uma peça que exigia cenário
complexo e teria custo muito alto. Só
Thomaz Santa Rosa, um pernambucano ex-funcionário
do Banco do Brasil, cantor lírico,
desenhista, músico e poeta, achou que
era possível. Falou então com
um polonês recém-chegado ao Brasil:
Zbigniew Ziembinski.
O grande ator e diretor leu
a peça e disse: "Não conheço
nada no teatro mundial que se pareça
com isso". O autor conhece o diretor
e tem início a epopéia do grupo
"Os Comediantes": oito meses de
ensaios, oito horas por dia. Às 20h30
do dia 28 de dezembro de 1943, os portões
foram abertos e 2.205 espectadores viram a
peça. Duas horas depois a peça
chegou ao fim. O silêncio foi total
na platéia. Nos bastidores ninguém
sabia o que fazer. Ziembinski, entre palavrões
em polonês, manda subir o pano. Os artistas
surgem e o aplauso é ensurdecedor.
O diretor aparece e o teatro delira. Alguém
grita na platéia: "O autor, o
autor". Nelson estava escondido em um
camarote, lutando contra a dor de sua úlcera,
e não foi visto por ninguém.
Disse, depois, que sofreu naquele momento,
sentindo-se "um marginal da própria
glória". Quando o autor, após
as comemorações com a família
na leiteria "Palmira", pegou o bonde
de volta para casa já eram quase duas
da manhã de 29 de dezembro de 1943.
Naquele momento completavam-se catorze anos
da morte de seu irmão Roberto.
Apesar da fama que a peça
lhe deu — o ano de 1944 foi cheio de
acontecimentos — ele continuava sendo
mal pago pelo O Globo Juvenil. Em fevereiro
de 1945 é convidado por David Nasser,
de O Cruzeiro, para uma conversa com Freddy
Chateaubriand. Foram almoçar, além
do autor, Freddy Chateaubriand, Millôr
Fernandes e David Nasser. A oferta era inacreditável:
cinco contos de réis (já nessa
época cinco mil cruzeiros) —
mais de sete vezes o que lhe pagava Roberto
Marinho.
Para ele estava fechado, mas
pediu para falar com o dr. Roberto, a quem
devia favores. Esse não só não
se opôs como desejou-lhe boa sorte e
deu-lhe dez mil cruzeiros. Nelson foi para
seu novo emprego: diretor de redação
das revistas Detetive e de O Guri. Como a
função lhe tomava pouco tempo,
o autor ficava perambulando pela redação
da revista O Cruzeiro, que era no mesmo andar.
Sempre procurando fazer "bicos"
que permitissem um ganho extra — continuava
a ajudar sua mãe financeiramente —
soube que Freddy Chateaubriand estava querendo
comprar um folhetim francês ou americano
para O Jornal, que estava com uma tiragem
de apenas 3.000 exemplares por dia e sem anúncios.
Nelson ofereceu-se para escrever o folhetim.
Daí nasceu Suzana Flag e Meu destino
é pecar.
Cada episódio tomava
uma página inteira de O Jornal e tinha
uma ilustração de Enrico Bianco.
Foram 38 capítulos que elevaram a tiragem
do jornal para quase trinta mil exemplares.
Apesar de estar ganhando um extra por capítulo,
o autor não gostava que soubessem que
escrevia com pseudônimo feminino. Quando
a história terminou, o sucesso foi
tão grande que foi lançado um
livro pelas Edições O Cruzeiro.
Calcula-se que a venda tenha ultrapassado
a trezentos mil livros. Isso provocou o começo
de outro folhetim, Escravas do amor, cujo
sucesso foi também retumbante.
Em março de 1945 é
atacado, novamente, pela tuberculose. O ano
anterior havia sido ótimo: além
do lançamento em livro do Vestido de
noiva, ele via seu filho crescer com saúde
e Elza esperava um novo filho. Resolveram
ir todos para Campos de Jordão, inclusive
a sogra, d. Concetta. Depois de uma semana
viram que aquilo não fazia sentido
e a família retornou. Em junho teve
alta e, face à proximidade do parto
de sua mulher, voltou correndo para o Rio.
Nasceu, então, Nelsinho. Vale dizer
que os Associados arcaram com todas as despesas
de seu empregado no Sanatórinho.
Nos dois últimos meses
de 1945 e nos dois primeiros meses de 1946
o grupo "Os Comediantes" encenou
Vestido de noiva e A mulher sem pecado no
Teatro Phoenix, com lotação
esgotada. Começa a escrever, então,
Álbum de família. Em fevereiro
de 1946 o texto é submetido à
censura federal e os censores ficam de cabelos
em pé. A peça foi proibida de
ser encenada. As opiniões se dividiam
entre os intelectuais, os críticos
e os jornalistas da época, uns a favor
da liberação outros contra.
Venceram os contra, pois a peça só
foi liberada em 1965 e levada pela primeira
vez em julho de 1967.
Outro sucesso de 1946 foi a
publicação de Minha Vida, uma
"autobiografia" de Suzana Flag.
Como das vezes anteriores, além de
publicada em O Jornal, virou livro e vendeu
horrores.
Anjo negro, estréia
em abril de 1948. Como sempre, gerou comentários
polêmicos. Os ganhos com a peça
permitiram que o autor comprasse uma casa
no Andaraí, que teve parte financiada
no IAPC (Instituto de Aposentadorias e Pensões
dos Comerciários). Nelson tinha 36
anos e ficara livre do aluguel. Senhora dos
afogados é proibida em janeiro de 1948.
Com duas peças interditadas, o autor
luta como um mouro para tentar liberá-las.
Não conseguindo, escreve Dorotéia,
em 1949, que muitos consideram seu melhor
trabalho teatral.
Ainda em 1948 é publicado
mais um folhetim, Núpcias de fogo,
ainda como Suzana Flag.
Uma mulher chama a atenção
do autor nas coxias do Teatro Phoenix, quando
da encenação de Anjo negro:
era Eleonor Bruno, conhecida como Nonoca,
linda "mingnonne", tímida,
recatada e soprano lírico, que estava
ali para tomar conta de sua filha de apenas
13 anos, Nicete, que estreava como atriz.
Embora nunca reclamasse, seu casamento não
ia bem, e ele foi aceito por Nonoca e por
toda sua família. Alugou um apartamento
pequeno em Copacabana, em sociedade com o
amigo Pompeu de Souza, para servir-lhes de
"garçonnière", até
que num dia de 1950 sua esposa Elza bateu
na porta, fez um escândalo e ele voltou
com o rabo entre as pernas para casa. Seu
romance com Nonoca terminou ali.
Em 1949 Freddy Chateaubriand
vai comandar o jornal "Diário
da Noite" e leva Nelson consigo. Para
trás fica Suzana Flag, que o autor
não agüentava mais. Em seu lugar
surgiu Myrna, a nova máscara feminina
do biografado. A diferença é
que Myrna respondia a cartas de leitoras.
Nelson escreveu a comédia
Dorotéia para Nonoca. Foram duas as
estréias como atrizes: de Nonoca e
da irmã do autor, Dulcinha, aos 21
anos, no papel de Das Dores. Com medo de que
a censura o atingisse novamente, o autor submeteu-lhe
o texto como sendo um "original de Walter
Paíno" — cunhado de Nonoca.
A peça foi aprovada e estreou no dia
07 de março de 1950. Ao fim da apresentação,
metade da platéia (onde estavam os
convidados) aplaudiu e a outra saiu calada.
Ficou 13 dias em cartaz.
Em 1950 o autor dá adeus
a Freddy Chateaubriand e aos "Diários
Associados" e fica esperando convites
de outros jornais. Ficou um ano esperando...
Nesse período, salvam a família
as economias de Elza e um "bico"
no Jornal dos Sportes de seu irmão
Mário Filho. No ano seguinte sai do
buraco e vai para a Última Hora e "A
vida como ela é...". Começou
com um salário de dez mil cruzeiros,
considerado não tão ruim, tendo
em vista seu baixíssimo prestígio
naquela época.
Em junho Nelson estréia
uma nova peça, "Valsa nº.
6", um monólogo estrelado por
sua irmã Dulcinha. Ficou quatro meses
em cartaz e foi outra desilusão para
seu autor.
Samuel Wainer, dono do jornal
Última Hora tinha algo em comum com
o biografado: a tuberculose. Propõe
ao autor que escreva, com pagamento extra,
uma coluna diária sobre um fato real.
Poderia se chamar "Atire a primeira pedra".
Nelson sugeriu "A vida como ela é..."
e, sugestão aceita, foi para a máquina
escrever a primeira coluna. O sucesso foi
estrondoso. Em 1951 relançou Suzana
Flag em "O homem proibido".
Um dia, na rua Agostinho Menezes,
onde então Nelson morava, um marido
banana que era chutado como um cão
pela esposa e ainda a bajulava, cansou-se
do tratamento que vinha recebendo e, no meio
da rua, deu uma sova de cinto na cara-metade.
É claro que a vizinhança correu
para ver o fato, sendo que as mulheres gritavam:
"Bate mais, bate mais". O marido
bateu até se cansar, parou, e então
o inesperado aconteceu: a mulher atirou-se
aos seus pés, aos beijos. E, desde
aquele dia, passou a desfilar com o ex-banana,
de braço dado e nariz empinado, toda
orgulhosa. Ao ouvir os comentários
das vizinhas que tinham apoiado maciçamente
a surra, Nelson concluiu: "Toda mulher
gosta de apanhar".
Em 08 de junho de 1953 estréia
no Teatro Municipal do Rio a peça "A
falecida". Chamada de "tragédia
carioca" era, na verdade, uma comédia.
Foi escrita em 26 dias. Nessa época
Nelson mantinha um romance com Yolanda, secretária
de um radialista da rádio Mayrink Veiga.
Esse caso durou cinco anos e rendeu três
filhos: Maria Lúcia, Sônia e
Paulo César, que ele não reconheceu
como seus. Com tudo isso acontecendo, o autor
produziu o último folhetim de "Suzana
Flag", que chamou-se "A mentira"
e foi publicado no semanário "Flan",
lançado por S. Wainer.
Carlos Lacerda queria derrubar
o presidente Getúlio e, para tanto,
batia firme em Samuel Wainer e no jornal Última
Hora. Nelson não escapava da pancadaria
e era chamado de "tarado" por ele.
Outro que também o atacava era o católico
Gustavo Corção, da Tribuna da
Imprensa.
"Senhora dos Afogados"
é encenada no Rio, em 1954, com direção
de Bibi Ferreira. A platéia, ao final,
dividiu-se e uma parte gritava "GÊNIO"
e a outra "TARADO". O autor não
agüentou e reagiu à platéia,
gritando do palco: "BURROS! BURROS!".
Em março de 1955 a família
Rodrigues ganha uma ação contra
o governo de indenização pela
destruição do jornal "Crítica".
Em 1956 recebem o equivalente a US$1.800.000,00.
A parte que coube ao autor foi utilizada na
compra de um apartamento em Teresópolis
em nome dos filhos e de um carro para Elza.
O que sobrou, investiu no teatro.
"Perdoa-me por me traíres"
teve, também, problemas de liberação
com a censura, em 1957 — sofreu cortes.
Outra surpresa ocorreu na estréia:
Nelson interpretava o personagem Raul. Mais
uma vez as vaias e os que aplaudiam pediam
para o autor falar. Ele não se fez
de rogado: "BURROS! ZEBUS!". Ninguém
esperava, mas aconteceu: um tiro! Na discussão
entre prós e contras, o vereador Wilson
Leite Passos sacou de seu revolver e deu um
tiro para amedrontar alguém que o havia
chamado de "palhaço". Tumulto
geral. No dia seguinte a censura proibiria
a peça.
"Viúva, porém
honesta" estreou em 13 de setembro do
mesmo ano. Dizem que nela o autor procurava
atingir aos críticos que atacaram "Perdoa-me
por me traíres". Um dos atores
era Jece Valadão, cunhado do autor.
Dercy Gonçalves estréia
"Dorotéia" em São
Paulo. Ficou um mês em cartaz. Nelson
não gostava dos "cacos" que
a atriz introduzia no texto.
Em 1958 estréia "Os
sete gatinhos", também com Jece
Valadão no elenco. Apesar de malhar
o presidente da República da época,
Juscelino Kubitschek, Nelson vai até
ele pedir um emprego. Consegue um cargo de
tesoureiro em um instituto de aposentadoria
e pensões (IAPETEC), mas é reprovado
no exame de vista. Pede, então, a vaga
para Elza. Juscelino queria agradar Mário
Filho e a nomeia.
O autor teve sério problema
de vesícula e, após a operação
de alto risco, ficou três meses sem
publicar sua coluna no jornal de Wainer. Sua
coluna em "A Manchete Esportiva"
deixa de ser publicada de novembro de 1958
a março de 1959.
De agosto de 1959 a fevereiro
de 1960, centenas de milhares de leitores
acompanharam a história de Engraçadinha
e sua família em "Asfalto Selvagem".
Foram publicados dois livros, intitulados
"Engraçadinha — seus amores
e seus pecados dos doze aos dezoito"
e "Engraçadinha — depois
dos trinta".
O autor almoçava com
sua mãe quase todo dia. Tomava o ônibus
na Central do Brasil e ia até o Parque
Guinle. Um dos motoristas gostava de exibir-se:
tinha vinte e sete dentes na boca, mas eram
todos de ouro. Nelson juntou esse fato ao
bicheiro do submundo carioca, Arlindo Pimenta,
e dai surgiu o "Boca de Ouro"
A peça, como todas as
demais, teve problemas com a censura. Foi
levada para estrear em São Paulo e
foi um retumbante fracasso. Ziembinski insistiu
em viver o papel principal e não deu
certo. Em janeiro de 1961, com Milton Morais
no papel do "Boca de Ouro", estréia
no Rio com grande sucesso.
Ainda no final de 1960 o autor
entrega a Fernanda Montenegro e a seu marido
Fernando Tôrres a peça "Beijo
no asfalto". O espetáculo estava
a um mês e meio em cartaz quando Jânio
Quadros renunciou à presidência
da República. Ficou sete meses em cartaz,
pelo Brasil. Ela provocou a saída de
Nelson da "Ultima Hora", pois nela
fazia referências pouco positivas à
imagem do jornal. Voltou ao "Diário
da Noite" com "A vida como ela é"
e, após dez meses, em julho de 1962,
foi para "O Globo", com a coluna
de futebol, "À sombra das chuteiras
imortais".
Apresentado por sua irmã
Helena, Nelson conhece Lúcia Cruz Lima,
que logo passa a ser sua namorada. Só
que desta vez a coisa era séria. Casada
e bem casada, mãe de três filhos,
ela logo se apaixona, deixa o marido e volta
a viver com os pais. Ele demora dois anos
para se separar de Elza. Seus amigos Otto
Lara Resende, Fernando Sabino e Cláudio
Mello e Souza ficam chocados. Nos primeiros
meses de 1963 nada impedia a separação
do autor. Já havia alugado um pequeno
apartamento e Lúcia estava grávida.
Após um almoço de despedida,
após o qual Elza tentou suicidar-se,
ele partiu de malas e bagagens para o apartamento
de sua mãe. Ia ficar lá uns
tempos até acertar tudo.
Na marquise do Teatro Maison
de France, no Rio, piscava o título
da nova peça de Nelson: "Otto
Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária".
Otto quase morreu de susto e ficou profundamente
irritado. Ela ficou por cinco meses em cartaz.
O autor só não se conformou
de Otto não ter ido assistir ao espetáculo.
Ele adorava essas brincadeiras e fez o mesmo
com Fernando Sabino e com Cláudio Mello
e Souza.
Lúcia deu um trato na
aparência do escritor, já que
ele participava desde 1960 do programa esportivo
"Grande resenha Facit" na TV Rio,
por obra e graça de Walter Clark, e
era, portanto, um artista! Ela teve uma gravidez
nada normal e um parto difícil. Daniela,
a filha, nasceu com 1,5 quilo, e não
conseguia respirar. Perdeu minutos de oxigenação
no cérebro até que conseguissem
fazer seus pulmões funcionarem. Daniela
passaria o primeiro ano de sua vida numa tenda
de oxigênio, tinha má circulação
nas pernas, chorava sem parar em virtude das
dores que sentia. Devido à paralisia
cerebral nunca conseguiu andar ou articular
um movimento e era irreversivelmente cega.
Nelson escreveu para Walter
Clark a primeira novela brasileira de todos
os tempos: "A morte sem espelho".
Apesar do grande elenco — Fernanda Montenegro,
Fernando Tôrres, Sérgio Brito
(que também respondida pela direção),
Ítalo Rossi, Paulo Gracindo (que estreava
na TV), música de Vinícius de
Moraes — não foi autorizada a
sua apresentação às oito
e meia da noite. Foi empurrada para o horário
das vinte e três e trinta. Walter Clark
apelou, sem sucesso, até para D. Helder
Câmara. Conseguiu, finalmente, autorização
para o horário das dez horas, que não
compensava financeiramente. Nelson foi convidado
a encerrá-la rapidamente.
Ficou claro nesse episódio
que o problema era o nome do autor. Na sua
novela seguinte, "Sonho de Amor",
em 1964, seu nome apareceu mas ela foi anunciada
como 'uma adaptação de "O
Tronco do Ipê"', de José
de Alencar". Sua última novela
para a TV foi "O Desconhecido",
com direção de Fernando Tôrres
e Jece Valadão, Nathalia Timberg, Carlos
Alberto, Joana Fomm e outros mais, que só
foi liberada graças ao poder de convencimento
de Walter Clark.
Depois de ser renegada por
muitas atrizes, "Toda nudez será
castigada" estréia no dia 21 de
junho de 1965 e é um sucesso. Os artistas
são aplaudidos em cena aberta, os ingressos
são avidamente disputados e fica em
cartaz por seis meses no Teatro Serrador e
em excursão pelo Brasil. Após
três anos de apresentações
no Rio, São Paulo, Porto Alegre e Salvador,
a peça é proibida em Natal -
RN.
Em 1966 o autor muda-se, a
convite de Walter Clark, para a TV Globo.
Em situação financeira apertada
— como sempre — aceitou até
aparecer como "tradutor" dos romances
de Harold Robins, publicados pela Editora
Guanabara. Foi uma forma de receber mais algum
dinheiro. A TV Globo era a "lanterna"
na preferência dos telespectadores naquela
época. No programa "Noite de gala"
o autor apresentava o quadro "A cabra
vadia", onde entrevistava pessoas. O
primeiro foi João Havelange, presidente
da CBD - Confederação Brasileira
de Desportos.
Nessa época é
chamado por Carlos Lacerda, ocasião
em que é informado da criação
da Editora Nova Fronteira. Lacerda, que o
malhou por tanto tempo, pediu-lhe um romance
e deu-lhe um cheque de dois milhões
de cruzeiros. Era algo em torno de novecentos