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De todos os feitios,
tamanhos e cores. Quando comecei a dar
conta do mundo, enfiado em um imenso
quintal suburbano do Rio de Janeiro,
os velhos daqueles tempos deixavam bem
claro que já não havia
mais salvação. Bom tinha
sido no tempo deles, eu jamais poderia
ser feliz, pois os bondes não
eram mais o que tinham sido, as diferentes
versões para cada ocasião
específica tinham sido substituídas
pela sem-graça da oferta única
do coletivo de dois carros, bancos de
madeira e um ou dois estribos.
Eu não tinha coragem
de discordar abertamente, mas na certeza
decorrente das minhas ponderações
e profundas reflexões durante
aqueles primeiros três ou quatro
anos da minha existência, sabia
que não podia ser tão
ruim assim. Afinal, velhos tendiam naturalmente
ao pessimismo: má-digestão,
intestino preso, rugas...
Em todo o caso
as histórias me fascinavam. Diziam
que bondes os havia para diversas ocasiões
e propósitos da vida urbana:
engalanavam-se para casamentos, esfumavam-se
funéreos para enterros, transportavam
mudanças, móveis, objetos
e animais domésticos, eram utilizados
como ambulâncias do sistema de
saúde pública ou em campanhas
de vacinação. Sem falar,
é claro, do ilustre passageiro
que ia, todo pimpão, lindeiro
ao belo tipo faceiro...
E apesar da apregoada
decadência e do pessimismo dos
antigos, ainda passamos bons anos juntos,
eu e eles. Foram mais de dez anos, do
bondinho vagaroso e amável da
Ilha do Governador aos elegantes e algo
empelicados "semoventes" (como
os imaginava o poeta) das linhas da
cidade, que iam das Barcas ou do Tabuleiro
da Baiana para a Tijuca, Camerino, Penha,
Bonsucesso, São Cristóvão,
Méier, Engenho de Dentro, Copacabana,
Urca, Ipanema, Leblon, Gávea,
Jardim Botânico... tantos locais,
uma lógica urbana perfeita e
absolutamente funcional.
Mais tarde, já
adolescente, passei a considerar Belo
Horizonte uma das mais civilizadas cidades
do Mundo: os bondes eram vagões
fechados, com portas de entrada e saída,
corredor central, bancos laterais e
cada um com sua janela fechada com vidros!
Depois percebi que nem
todos eram assim, veros bondes europeus:
a maioria, para dizer a verdade, estava
mais para o heróico e ronceiro
bondinho da Ilha que para os orgulhosos
“ingleses de polainas” do
Rio.
Até em São
Luís do Maranhão andei
de bonde. Em ruas silenciosas, calçadas
com paralelepípedos e ladeadas
de casinhas amáveis, onde ecoavam
as músicas de
Vicente Celestino, cantadas do estribo
por um menino, tipo popular da cidade,
pouco maior que os meus seis anos daqueles
tempos e que dessa maneira ia amealhando
alguns tostões.
Soube depois, embora
não chegasse a tempo para ser
transportado por eles, que existiam
bondes em Juiz de Fora, Belém,
Campinas, Curitiba, Porto Alegre...
e mais um punhado de cidadezinhas amáveis
e acolhedoras pelo Brasil afora, daqueles
modorrentos anos cinqüenta.
Anos de transição,
percebemos quando chegou a década
seguinte. Como transitórios todos
somos: eu, o cantorzinho, meu pai, os
velhos da remota infância. À
exceção, claro, da felicidade
daqueles tempos, do condutor e do motorneiro...
Fotos de bondes
antigos obtidas na Internet. Saiba tudo
sobre os bondes visitando o site do
Novo Milênio. E pra quem gosta
de bondes, uma sugestão: visitar
o Museu do Bonde em Santa Teresa (Rua
Carlos Brant, 14 - Tel: 2220-1003)
fonte: Ivo Korytowski |
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