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Há tempos
devo a alguns leitores uma explicação
sobre o emprego dos verbos "haver"
e "existir", sobretudo quando
integrantes de locuções verbais.
Como se sabe, não
são poucos os significados do verbo
"haver", muitos dos quais só
têm registro em textos literários,
religiosos, filosóficos etc. No
antológico poema "O Mar",
do escritor maranhense Gonçalves
Dias, encontra-se a forma "houveste",
do pretérito perfeito do indicativo,
neste trecho: "Donde houveste, ó
pélago revolto, esse rugido teu?".
Certa vez,
um importante vestibular pediu aos candidatos
que reescre-vessem esse trecho de "O
Mar" substituindo "houveste"
por um sinônimo, o que implicava
dar como resposta uma forma verbal da
mesma flexão. Como nesse caso o
verbo "haver" tem o sentido
de "obter", "conseguir",
a resposta deveria ser "obtiveste",
"conseguiste": "Donde obtiveste
(ou 'conseguiste'), ó pélago
revolto, esse rugido teu?".
Pois bem, entre os vários
sentidos de "haver" está o de "existir".
E é aí que os problemas começam.
Esses verbos são sinônimos, mas
não de-vem ser empregados do mesmo modo.
Usado com o sentido de "existir",
o verbo "haver" fixou-se no português
padrão como impessoal (verbo que não
tem sujeito e fica sempre na terceira pessoa
do singular). O ver-bo "existir" é
sempre pessoal, ou seja, é conjugado
de acordo com o seu sujeito.
Quando se diz "Há
muitas pessoas na sala",
não se faz a concordância entre "há" (terceira
pessoa do singular) e "pessoas" (plural).
Se "haver" for substituído
por "existir", será preciso
fazê-lo concordar com "pessoas":
"Existem muitas pessoas na sala".
É importante lembrar
que é absolutamente indiferente o tempo
em que se flexionam esses verbos. Se os exemplos
do parágrafo anterior fossem postos no
pretérito imperfeito do indicativo, por
exemplo, teríamos, res-pectivamente, "Havia (e não 'haviam') muitas pessoas
na sala" e "Exis-tiam
(e não 'existia') muitas pessoas na sala". Em suma, quando usado com
o sentido de "existir", "haver" não sai do singular
(em qualquer tem-po). O verbo "existir" não tem nada com a história.
E como ficam esses verbos
quando usados em locuções verbais?
Qual é o plural de "Há
de haver solução melhor" e "Há
de existir solução me-lhor"? É simples: basta levar em conta que,
numa locução verbal, a "ca-beça
pensante" é
sempre a do verbo principal (o último).
O verbo auxili-ar limita-se a seguir (fielmente)
as "vontades" do
chefe.
Em "Há
de haver solução melhor", o verbo principal é "haver", que,
por ser empregado com o sentido de "existir",
é impessoal. Seu auxiliar (qualquer que
seja) "assume" essa
impessoalidade e não sai do singu-lar: "Há de haver soluções
melhores".
Em "Há
de existir solução melhor", o verbo principal é "existir", que,
co-mo vimos, é sempre pessoal (concorda
com o sujeito). Seu auxiliar (qualquer que seja)
comporta-se como ele: "Hão
de existir soluções me-lhores".
De novo, não custa
lembrar que o tempo verbal não interfere
em nada: "Havia/Haverá/Haveria
de haver soluções melhores";
"Haviam/Haverão/ Haveriam de existir
soluções melhores". É
isso.
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