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Um
garoto de Ipanema
"Cazuza", na definição
do dicionário, é um vespídeo
solitário, de ferroada dolorosa.
É por isso, talvez, que no Nordeste
do Brasil esta palavra signifique moleque.
Aqui, porém, vamos falar do Cazuza
roqueiro, compositor e grande nome da
música brasileira.
Seu pai, José Araújo,
de ascendência nordestina, com
a certeza de que sua mulher Lúcia
teria um menino, começou a chamá-lo
de Cazuza, mesmo antes do nascimento
da criança. Nascido a 4 de abril
de 1958, no Rio de Janeiro, Cazuza foi
criado em Ipanema, sempre habituado
à praia. Seu verdadeiro nome: Agenor de Miranda Araújo
Neto. Ele preferiu o apelido
e só aceitou o seu nome, quando
soube que Cartola, um dos seus compositores
prediletos, chamava-se também
Agenor.
Os pais não eram ricos, mas o
matricularam em uma escola cara, o colégio
Santo Inácio, de padres Jesuítas.
Filho único, quieto e solitário,
foi um menino bem-comportado na infância,
apegando-se à companhia da avó
materna, Alice.
Na adolescência, contudo, começou
a manifestar características
do futuro roqueiro rebelde. Cazuza terminou
o ginásio e o secundário
a duras penas, e, depois de prestar
vestibular para Comunicação,
só porque o pai tinha lhe prometido
um carro, desistiu do curso em menos
de um mês de aula.
Nessa época, já estava
vivendo o trinômio: sexo, drogas
e rock 'n' roll . Adorava Jimi Hendrix,
Janis Joplin e os Rolling Stones. Deu
muito trabalho ao seu pai, que teve
que livrá-lo várias vezes
da prisão por porte e uso de
drogas; além disso, foi muito
difícil para a sua mãe
descobrir que seu filho se drogava e
era bissexual.
Em 1976, seu pai lhe conseguiu emprego
na gravadora Som Livre, com o intuito
de tirar Cazuza da vagabundagem. Foi
depois de algum tempo que, ao cursar
teatro, descobriu o que queria fazer.
Na montagem da peça " Pára-quedas
do coração", de final
de curso, ele apenas cantou e gostou
muito da experiência. Afinal,
desde muito pequeno, ele convivia em
sua casa com grandes figuras da MPB.
Só faltava encontrar a sua turma.
Em 1981, foi apresentado por Léo
Jaime à banda Barão Vermelho
formada por Roberto Frejat, guitarrista;
Dé, baixista; Maurício
Barros, teclados; Guto Goffi, baterista.
Eles precisavam de um vocalista e gostaram
da voz berrada de Cazuza, que mostrou
suas composições ao grupo;
começaram, então, a montar
um repertório próprio,
pois, antes só faziam covers.
Iniciaram com apresentações
em pequenos teatros, e em 1982, gravaram
o primeiro disco, com a produção
do pai de Cazuza. O disco foi feito
em apenas dois dias e teve boa recepção
por parte dos artistas. Caetano Veloso
incluiu em seu show a música
Todo amor que houver nessa vida e criticou
as rádios que não executavam
as músicas da banda. Desse primeiro
disco, podemos destacar as músicas:
Down em mim, Billy Negão e Bilhetinho
azul. No repertório predominavam
rocks básicos, dançantes
e juvenis, mas tinha também blues,
mostrando claramente a influência
de Janis Joplin, a quem Cazuza escutava.
Os temas das músicas eram o amor,
o prazer e a dor, tratadas de uma maneira
escancarada e despudorada.
No disco Barão Vermelho 2 (1983),
essas características se intensificaram
e o disco teve uma ótima aceitação
por parte da imprensa. Identificaram-no
com mestres da "dor-de-cotovelo",
como Lupicínio Rodrigues; e da
fossa, como Dolores Duran e Maysa. O
disco teve uma melhor qualidade de gravação
e vendeu 15 mil cópias, o dobro
do anterior, sem perder o nível.
Destacamos as músicas Vem comigo,
Carne de pescoço, Carente profissional
e a conhecidíssima Pro dia nascer
feliz, que consagrou a dupla de compositores
Frejat-Cazuza e foi gravada por Ney
Matogrosso, aliás, primeiro astro
da música brasileira a gravá-los.
Chegaram às telas em 1984 e foi
um marco para a banda que estourou com
a música-título Maior
abandonado, sendo que também
participaram do filme. Em setembro desse
mesmo ano, a música foi incluída
no 3° LP que vendeu 60 mil cópias
em 2 meses.
Com letras como "Raspas e restos
me interessam (…) Mentiras sinceras
me interessam" – da música
Maior abandonado, Cazuza ganhou fama
de poeta do rock brasileiro superando,
inclusive, suas limitações
como cantor .
Com uma atitude irreverente e declarações
polêmicas, acabou destacando-se
como personalidade e como artista. Isso
ocasionou uma diferença clara
com os demais integrantes da banda.
Além disso, seu temperamento
irreverente não se adequava a
uma agenda repleta de ensaios e entrevistas.
Em 1985, chegaram a participar do Rock
'n Rio, mas se separaram em julho desse
mesmo ano. Alguns dias depois, foi internado
em um hospital do Rio com 42 graus de
febre; nessa ocasião, fez um
teste de HIV que deu negativo. Nessa
época, os testes não eram
muito confiáveis.
O primeiro álbum solo intitulado
Cazuza foi lançado em novembro
de 1985, e mostrou uma sonoridade muito
mais limpa que os discos que tinha gravado
com o Barão Vermelho. Esse disco
teve como hits as músicas Exagerado
e Codinome Beija-flor; além de
Só as mães são
felizes , que foi proibida pela censura
de ser executada nas rádios.
Em 1987, apresentou o álbum Só
se for a dois, e a música que
fez sucesso foi O nosso amor a gente
inventa. A essa altura já sabia
que tinha contraído AIDS e estava
num momento muito importante de sua
carreira profissional: era tido como
um artista "louco" e realmente
com o rompimento de Cazuza com a banda,
ganhou mais liberdade artística
e ao mesmo tempo passou a ter mais exigência
e seriedade. O show que realizou nesse
ano recebeu excelente crítica.
Suas músicas tocavam e os seus
shows lotavam.
Em outubro de 1987, gravou Ideologia,
depois de ter ficado internado 2 meses
em Boston, nos Estados Unidos, sendo
tratado com AZT. Na contra-capa do disco,
aparecia muito magro, com um lenço
na cabeça, pois seus cabelos
estavam caindo por conta dos remédios.
"O meu prazer é risco de
vida /Meu sex and drugs não tem
nemhum rock'n'roll"- Assim cantava
Cazuza em Ideologia. Gravou, ainda,
as músicas Boas Novas, Blues
da Piedade, Meio bossa nova e rock 'n'
roll, Faz parte do meu show e com Gilberto
Gil, Um trem para as estrelas, que foi
trilha sonora do filme de Cacá
Diegues, com o mesmo nome. O show Ideologia,
em 1988, foi apresentado de norte a
sul do Brasil e marcou uma fase de intenso
trabalho para o cantor.
Vendeu 560 mil cópias de seu
disco seguinte: Cazuza ao vivo com a
música O tempo não pára.(Essa
música foi gravada em espanhol.
pela banda argentina Bersuit Vergarabat).
O álbum Burguesia teve duas versões:
rock e MPB. O álbum não
teve tanto sucesso. Em outubro de 1989
foi internado em São Paulo, e,
em seguida, foi para Boston onde permaneceu
até março de 1990. Viria
a falecer em 7 de julho1990. Foi enterrado
no cemitério São João
Batista, Rio de Janeiro, ao lado de
grandes nomes da MPB (como: Carmem Miranda,
Francisco Alves, Ary Barroso e Clara
Nunes).
Cazuza ficará na história
da música brasileira como um
grande compositor, que ao lutar pela
vida, ofereceu um trabalho talentoso
e de grande sensiblidade ao seu público.
Viveu uma época difícil
de transição política
e pôde nos deixar uma grande obra
que, a partir da crítica e da
revolta, revela-nos muita esperança.
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