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Vinícius de Moraes |
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Homem
de muitos amigos e muitos
casamentos (teve 9 mulheres),
foi, além de poeta,
escritor, compositor e cantor,
um brasileiro movido por muito
amor à vida.
O uísque era para ele
“o melhor amigo do homem”,
segundo suas palavras: um
cachorro engarrafado*. Super
inteligente, dedicou-se ao
jornalismo, mas também
seguiu a carreira diplomática.
Foi vice-cônsul em Los
Angeles e segundo-secretário
da embaixada em Paris.
A sua peça teatral
Orfeu da Conceição
(premiada em 1954, no IV Centenário
da Cidade de São Paulo)
serviu de base a um filme
que em 1959 conquistou o 1°
prêmio no Festival de
Cannes.
Mas, com certeza, o que mais
o marcou foi a sua carreira
de poeta, bem como, a sua
ligação com
a Bossa Nova e o samba atual.
Ele morreu há 20 anos
(em julho de 1980, aos 67
anos), no seu lugar preferido
(a banheira da sua casa),
porém está tão
presente que, às vezes,
até esquecemos que
fisicamente não está
mais com a gente. As marcas
artísticas por ele
deixadas são imortais,
impossíveis de descrever.
Infinitas enquanto durarem...
Vou me despedindo de vocês
com um poema e algumas “dicas”
de Vinícius para viver
um grande amor.
Insensatez
(Vinícius com o amigo Tom Jobim)
Ah, insensatez que você fez
Coração mais sem cuidado
Fez chorar de dor o seu amor Um amor
tão delicado Ah, por que você
foi fraco assim? Assim tão
desalmado Ah, meu coração,
quem nunca amou Não merece
ser amado.
Vai, meu coração, ouve
a razão Usa só sinceridade
Quem semeia vento, diz a razão
Colhe sempre tempestade Vai, meu coração,
pede perdão Perdão apaixonado
Vai, porque quem não pede perdão
Nunca é perdoado.
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Para
viver um grande amor
(Vinícius de Moraes)
Para viver um grande amor, preciso
é muita concentração
e muito siso, muita seriedade e pouco
riso - para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, mister
é ser um homem de uma só
mulher; pois ser de muitas, poxa!
é de colher... - não
tem nenhum valor. Para viver um grande
amor, primeiro é preciso sagrar-se
cavalheiro e ser de sua dama por inteiro
- seja lá como for. Há
que fazer do corpo uma morada onde
clausure-se a mulher amada, e postar-se
de fora com uma espada - para viver
um grande amor. Para viver um grande
amor, vos digo, é preciso atenção
como o "velho amigo", que
porque é só vosso quer
sempre consigo para iludir o grande
amor. É preciso muitíssimo
cuidado com quem quer que não
esteja apaixonado, pois quem não
está, está sempre preparado
para chatear o grande amor. Para viver
um grande amor, na realidade, há
que compenetrar-se da verdade de que
não existe amor sem fieldade
- para viver um grande amor. Pois
quem trai seu amor por vaidade é
desconhecedor da liberdade, dessa
imensa, indizível liberdade
que traz um só amor. Para viver
um grande amor, Li falta, além
de ser fiel, ser bem conhecedor de
arte culinária e de judô
- para viver um grande amor. Para
viver um grande amor perfeito, não
basta ser apenas bom sujeito; é
preciso também ter muito peito
- peito de remador. É preciso
olhar sempre a bem-amada como a sua
primeira namorada e sua viúva
também, amortalhada no seu
finado amor.
É muito necessário ter
em vista um crédito de rosas
no florista - muito mais, muito mais
que na modista! - para aprazer ao
grande amor. Pois do que o grande
amor quer saber mesmo, é de
amor, é de amor, de amor a
esmo; depois, um tutuzinho com torresmo
conta ponto a favor...
Conta ponto saber fazer coisinhas:
ovos mexidos, camarões, sopinhas,
molhos, estrogonofes - comidinhas
para depois do amor. E o que há
de melhor que ir pra cozinha e preparar
com amor uma galinha com uma rica
e gostosa farofinha, para o seu grande
amor? Para viver um grande amor é
muito, muito importante viver sempre
junto e até ser, se possível,
um só defunto - para não
morrer de dor. É preciso um
cuidado permanente não só
com o corpo mas também com
a mente, pois qualquer "baixo"
seu, a amada sente - e esfria um pouco
o amor. Há que ser bem cortês
sem cortesia; doce e conciliador sem
covardia; saber ganhar dinheiro com
poesia - para viver um grande amor.
É preciso saber tomar uísque
(com o mau bebedor nunca se arrisque!)
e ser impermeável ao diz-que-diz-que
- que não quer nada com o amor.
Mas tudo isso não adianta nada,
se nesta selva escura e desvairada
não se souber achar a bem-amada
- para viver um grande amor. |
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