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Alencar foi para
São Paulo cursar a famosa Faculdade
de Direito. Na escola de direito discutia-se
de tudo, principalmente literatura.
Era o tempo do Romantismo, que tornou-se
não apenas o estilo artístico
predominante, mas um "estilo
de vida": boêmia, regada
a farras e muita bebida.
Introvertido, quase tímido,
o jovem Alencar não conseguia
se adaptar às rodas boêmias
tão freqüentadas por outro
companheiro que também ficou
famoso: Álvares de Azevedo.
Em 1850, surgiram os primeiros sintomas
da tuberculose que atormentou o escritor
por mais de 30 anos. Mesmo assim,
formou-se e foi para o Rio de Janeiro
trabalhar num escritório de
advocacia, profissão que jamais
abandonou.
Desiludido com sua primeira paixão
não correspondida por uma senhorita
da alta sociedade carioca, Alencar
se casou aos 35 anos com Geogiana
Cochrane.
A esta altura, José de Alencar
já estava metido com política.
Deputado mais de uma vez, nomeado
ministro da Justiça, nunca
chegou ao Senado porque o imperador
vetou sua indicação.
Este fato marcou para sempre o escritor,
que inúmeras vezes revelou
ter se sentido injustiçado.
Ele jamais perdoou o imperador por
isso.
José de Alencar iniciou sua
carreira de escritor publicando capítulos
de seus primeiros romances em folhetins:
Cinco Minutos e A Viuvinha.
Já bastante conhecido, Alencar
estreou no teatro com a peça
"As asas de um anjo", a
qual foi censurada três dias
depois. Segundo a censura, era uma
peça imoral, pois era a história
de uma prostituta.
Sua produção é
bastante variada. Senhora, Lucíola
e Diva são romances urbanos.
As Minas de Prata e A Guerra dos Mascates
são romances históricos.
O Gaúcho, O Sertanejo e O Tronco
do Ipê são romances regionalistas.
Também escreveu grandes romances
indianistas como Iracema e Ubirajara
e O Guarani, em 1857, com o qual se
imortalizou.
Em 1876 fez uma viagem à Europa,
buscando tratamento para sua saúde
precária, mas de volta ao Brasil,
morreu no Rio de Janeiro no dia 12
de dezembro de 1877, sem terminar
o romance Exhomem, que critica o celibato
clerical.
Em suas obras, Alencar incorporava
regionalismos e termos indígenas,
procurando com isso se distanciar
do português de Portugal. Através
de suas personagens buscava traçar
um perfil essencialmente brasileiro.
Um pouco exagerado, é verdade,
pois os índios inventados pelo
romancista parecem inverossímeis
e seus heróis regionais esbanjam
invencionice, mas isso não
diminui o mérito do escritor.
Afinal, a literatura não pretende
ser um documento frio e científico
da realidade. As situações
criadas por Alencar eram simbólicas
e o objetivo dele era trazer o nacionalismo
para a nossa literatura, coisa que
ele perseguiu durante toda sua vida.
Bem, querido leitor, por hoje é
só. Mas para finalizar o nosso
artigo de hoje leia ainda um pequeno
trecho em que Álvaro, salvo
por Peri, conversa com o índio,
e tente você mesmo sentir o
encanto da literatura de José
de Alencar.
O Guarani
(fragmento)
- Obrigado ainda uma vez,
Peri; não pela vida que me
salvaste, mas pela estima que me tens.
E o moço apertou a mão
do selvagem.
- Não agradece; Peri nada fez;
quem te salvou foi a senhora.
Álvaro sorriu-se da franqueza
do índio, e corou da alusão
que havia em suas palavras.
- Se tu morresses, a senhora havia
de chorar; e Peri quer ver a senhora
contente.
- Tu te enganas; Cecília é
boa, e sentiria da mesma maneira o
mal que sucedesse a mim, como a ti,
ou a qualquer dos que está
acostumado a ver.
- Peri sabe por que fala assim; tem
olhos que vêem, e ouvidos que
ouvem; tu és para a senhora
o sol que faz o jambo corado, e o
sereno que abre a flor da noite.
- Peri!... exclamou Álvaro.
- Não te zangues, disse o índio
com doçura; Peri te ama, porque
tu fazes a senhora sorrir. A cana
quando está à beira
d’água, fica verde e
alegre; quando o vento passa, as folhas
dizem Ce-ci. Tu és o rio; Peri
é o vento que passa docemente,
para não abafar* o murmúrio
da torrente; é o vento que
curva as folhas até tocarem
n’água.
Álvaro fitou no índio
um olhar admirado. Onde é que
este selvagem sem cultura aprendera
a poesia simples, mas graciosa; onde
bebera a delicadeza de sensibilidade
que dificilmente se encontra num coração
gasto pelo atrito da sociedade?
A cena que se desenrolava a seus olhos
respondeu-lhe; a natureza brasileira,
tão rica e brilhante, era a
imagem que produzia aquele espírito
virgem, como o espelho das águas
reflete o azul do céu. (José
de Alencar) |
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