Como teria sido o Natal
brasileiro antes de sua "europeização"
e da adoção da árvore
de Natal e do Papai Noel? A julgar pelo conto
do Machado, "Missa do Galo", e pela
crônica "Como se Ouve a Missa do
Galo" de João do Rio, publicada
em 1906, a grande atração da
véspera do Natal era a missa do galo.
As pessoas acorriam à missa em massa
como hoje vão à queima de fogos
do Réveillon. Mas a missa em si, mero
pretexto para brincadeiras, paqueras, bebedeiras.
Pelo menos é o que se depreende da
crônica saborosa do João. Abaixo
alguns trechos.
Eu estava exatamente defronte
da igreja de Santana, dispondo de um automóvel
possante. Era a mais que alegre hora da meia-noite
que alguns temperamentos românticos
ainda julgam sinistra. Aquele trecho da cidade
tinha um aspecto festivo, um estranho aspecto
de anormalidade. (...)
Grupos de rapazes berravam
graças, bondes paravam despejando gente,
vendedores ambulantes apregoavam doces e comestíveis;
todos os rostos abriam-se em fraterna alegria,
e naquela sarabanda humana, naquele vozear
estonteante, uma nota predominava –
a do namoro. Os rapazes estavam ali para namorar,
para aproveitar a ocasião. (...)
Copacabana devia ser divertido.
Tomei de novo o automóvel e disse ao
chauffeur:
– Para Copacabana.
Naquele delicioso percurso
da Avenida Beira-Mar, toda ensopada de luz
elétrica, outros automóveis
de toldo arriado, outros carros, outras conduções
corriam na mesma direção. Homens
espapaçados nas almofadas davam vivas,
mulheres de grandes chapéus estralejavam
risos, era uma estrepitosa e inédita
corrida para Cítera [ilha do Egeu famoso
pelo templo a Afrodite]
(...) Cerca de três mil
pessoas – pessoas de todas as classes,
desde a mais alta e a mais rica à mais
pobre e à mais baixa, enchia aquele
trecho, subia promontório acima [em
direção à igrejinha de
Copacabana]. E o aspecto era edificante. Grupos
de rapazes apostavam em altos berros subir
à igreja pela rocha; mulheres em desvario
galgavam a correr por outro lado, patinhando
a lama viscosa. Todos os trajes, todas as
cores se confundiam num amálgama formidável,
todos os temperamentos, todas as taras, todos
os excessos, todas as perversões se
entrelaçavam. (...)
De todos os lados partiam cantos
de galo. Os cocoricós clássicos
vinham finos, grossos, roufenhos, em falsete:
– Cocoricó! Cocoricô!
–Já ouviste cantar
o galo?
– Pois hoje não é a missa
dele?
– Cocoricó! pega ele pra capar!
– Pega!
A igrejinha [de Copacabana]
estava toda iluminada exteriormente à
luz elétrica. Defronte de sua fachada
lateral haviam armado um botequim. A turba
arfava aí, presa entre a bodega e o
templo...
(Do livro A alma encantadora
das ruas, de João do Rio, organizado
por Raúl Antelo e publicado pela Companhia
das Letras).